Porto Alegre, maio de 2015.
Eu estava numa sala universitária com um crachá de mentor pendurado no pescoço.
O evento se chamava Ideation — Sua Ideia Na Prática | POA. Uma competição empreendedora universitária, organizada pela Pulsar, patrocinada pela Burn e pelo GoDaddy, apoiada por Endeavor, UFRGS, Unisinos, Feevale e dezenas de outros nomes do ecossistema gaúcho de startups.
Cinco etapas: effectuation, problemática, modelagem, prototipagem, pitch.
Eu estava ali para guiar equipes de estudantes universitários pelo processo. Para ajudá-los a transformar ideias em negócios.
O que eles não sabiam era que eu tinha um documento no meu computador com dez ideias próprias.
Dez.
Algumas em processo, outras em discussão, outras prontas para lançar. Uma plataforma de organização de festas com orçamento por arrastar e soltar. Um tour virtual 360° ligado a e-commerce. Um sistema de vagas de rua por sensores e Wi-Fi. Um simulador de decoração por foto. Um marketplace de orgânicos por assinatura. Uma plataforma cívica com lógica de curtidas. Uma plataforma de cupons femininos georreferenciados com QRcode.
Cada uma dessas foi validada pelo mercado nos anos seguintes — por outras pessoas, em outros países, com outros nomes.
Mas naquela tarde, eu era o mentor.
Sentei do lado dos estudantes, fiz as perguntas certas, escutei os problemas deles como se fossem os meus — porque de certa forma eram. Reconhecia em cada pitch a mesma faísca que sentia quando uma ideia aparecia. A urgência. A certeza de que aquilo precisava existir.
Esse é o paradoxo do empreendedor que vive na fronteira entre criar e sustentar:
Você ensina outros a acreditar na ideia deles enquanto ainda carrega as suas no bolso, esperando o momento certo.
Não é contradição. É acumulação.
Cada mentoria que dei naquele dia alimentou algo em mim. Cada pergunta que fiz me fez reformular as minhas próprias respostas.
Alguns meses depois eu estaria na Alemanha. Construindo uma vida nova. Carregando os rascunhos.
Eles continuaram comigo.