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S3episódio 01 / 01 · 27 de agosto de 2026

O que não cabe num repositório

68,6% do código tem meu nome. É o número mais enganoso que eu já publiquei sobre mim mesmo.

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Puxei os números do GitHub semana passada. 354 pull requests. 312 integradas. 205 só em agosto. E, na coluna de autoria, 68,6% delas com o meu nome.

Olhei para aquilo com um orgulho que durou pouco.

Porque eu sei o que aconteceu nesses meses, e aquele número não sabe.

O que o gráfico vê

O gráfico vê quem escreveu. Não vê quem decidiu que não valia a pena escrever.

Não vê a pergunta que deixou de ser feita a um cliente porque alguém percebeu, antes de nós, que ela induzia a resposta que queríamos ouvir.

Não vê a decisão de barrar algo que a máquina entregou bonito e que não estava pronto.

Não vê a arquitetura pensada em voz alta numa conversa de trinta minutos, que economizou três semanas de trabalho que ninguém precisou fazer — e trabalho que não foi feito não aparece em lugar nenhum.

Não vê o desconforto silencioso de um time hiperfocado que produz muito e se desalinha sem perceber, nem quem percebeu isso primeiro e resolveu antes de virar problema.

Não vê o dia em que a intenção virou sequência: backlog, board, sprint. A diferença entre um monte de gente ocupada e um time trabalhando.

Nada disso vira commit. E tudo isso é a razão de os commits terem valido alguma coisa.

O time que eu não imaginava

Eu passei a maior parte da minha vida com ideias no bolso e ninguém para construí-las comigo. Quem acompanha esta série sabe: o funil de dez ideias, a tomada inteligente cinco anos antes da Alexa, o mentor que ensinava os outros a acreditar nas próprias ideias enquanto carregava as dele no bolso.

O que eu nunca tive foi isto.

Daniel. Manolo. André. Joice. Alexandra.

Não vou repartir crédito em parágrafos, porque não é assim que funciona. Cada um deles constrói exatamente aquilo que nenhuma estatística consegue apontar. É talento puro, e é ele que forma o pano de fundo de toda decisão que a gente toma — inclusive das decisões que parecem minhas.

Eu não imaginava que uma iniciativa como esta atrairia um time assim.

O que a IA fez, e o que ela não fez

Vou ser específico, porque essa parte costuma ser contada errada.

A IA não teve a ideia. Não escolheu o problema. Não decidiu o que não construir.

O que ela fez foi encurtar a distância entre entender um problema e ter a solução funcionando. Para alguém como eu — que conhece programação mas não é programador de profissão, que sempre se enxergou muito mais como alguém que procura respostas e aprende com elas — isso mudou tudo. Eu parei de precisar convencer alguém a executar aquilo que eu já enxergava.

Mas o que virou empresa não foi a velocidade.

Foi o contrapeso dela. Alguém verificando o que a máquina entrega. Alguém verificando se o mercado quer aquilo. Alguém verificando se as pessoas ainda estão se falando. Velocidade sem esses três é só um jeito mais rápido de construir a coisa errada.

E a gente ainda está aprendendo

Não vou fingir que temos isso resolvido. Estamos aprendendo no processo, todos nós, com um método que praticamente não existia há dois anos.

Mas uma coisa eu já sei, e é o motivo deste episódio existir:

a IA multiplicou o que a gente consegue produzir. O que transformou produção em empresa foram cinco pessoas que não aparecem em gráfico nenhum.

Cinquenta anos de rascunhos. Este é o primeiro que não estou escrevendo sozinho.

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*No próximo episódio: três dias, sessenta pull requests, e o que isso realmente significa.*

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