Era 1991. Eu tinha 16 anos e morava em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul.
Na cidade havia duas casas noturnas que todo mundo conhecia. O Manara era o templo das quartas-feiras — toda semana tinha karaokê com banda ao vivo, e quem tivesse coragem subia no palco. Era a noite da cidade. Imutável. Tradicional.
O Expresso 356 era diferente — um bar universitário que queria se destacar, mas ainda não sabia como.
Eu e um amigo enxergamos a brecha.
Fomos até o dono do Expresso com uma proposta simples: transformar o karaokê numa competição de verdade. Com banda, com regras, com semifinais, com uma final que tivesse stakes reais. Batizamos de Karaokê 100% Qualidade. O prêmio da final: uma guitarra da Multisom, um ano de academia, um kit de roupas Gang.
Eram cinco semanas de festival.
Nas primeiras noites já dava para sentir. As quartas-feiras do Manara começaram a esvaziar. O Expresso, que suportava no máximo 500 pessoas, viu a noite da final chegar com mais de 1000 pessoas tentando entrar.
A vencedora foi Midiam Almeida — uma voz que poucos anos depois estaria gravando jingles para a RBS TV.
Meu pai havia acabado de voltar de uma visita à fábrica da Mitutoyo no Japão, viagem patrocinada pela sua empresa. Ele me trouxe de presente uma filmadora. Com ela, filmei todo o festival.
Aquela filmadora se tornou o nosso portfólio.
O Sinos Shopping — o primeiro shopping center da região — nos chamou para repetir o formato na praça de alimentação. Foi novamente um sucesso.
O festival havia se transformado na minha primeira empresa.
Mas o que fica dessa história não é o número de pessoas, nem o shopping, nem o prêmio.
O que fica é que a gente pode ser criativo e se divertir com o processo.
Um produto melhor não precisa de mais dinheiro. Precisa de mais observação.
Eu não tinha estrutura. Tinha atenção.