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S2episódio 01 / 03 · 19 de maio de 2026

O Voluntário

Uma noite fria, um quartel, e a primeira vez que percebi que liderar é só andar com o medo — não atrás dele.

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Eu nunca soube exatamente quando comecei a liderar. Só percebi, com o tempo, que as pessoas já me seguiam antes de eu entender o que isso significava.

Não foi um cargo que me ensinou isso. Foi uma noite fria, num quartel, com o cheiro de terra úmida e o silêncio pesado de quem está com medo.

O treinamento militar noturno havia começado como todos os outros — tensão controlada, ordens curtas, o grupo fechado em si mesmo. Até que simularam um acidente. Um soldado caído, a situação travada, e um comunicado que ninguém queria ouvir: o exercício continuaria. Quem quisesse avançar, que se voluntariasse.

O silêncio que se seguiu disse tudo.

Havia quem chorasse. "Sou jovem demais pra morrer", alguém murmurou. Não era fraqueza — era medo real, daquele que aperta o peito e paralisa as pernas.

Eu também senti. Mas me levantei, respirei fundo e disse em voz alta, firme o suficiente para cortar o silêncio:

904 Martins.

Com o canto do olho, varri o grupo. Procurava alguém que fosse junto. Por sorte, alguns poucos tiveram a mesma iniciativa — e nos encontramos naquele espaço de coragem involuntária que só existe quando o medo ainda não ganhou.

Não porque éramos heróis. Mas porque havia algo em nós que simplesmente não conseguia ficar parado quando havia um espaço vazio esperando ser preenchido.

Fiz o exercício. Avancei pelo escuro. Completei a missão.

No final da noite, me chamaram à parte.

Por ter sido voluntário, eu teria direito a uma refeição especial e a uma noite inteira de sono.

Os que ficaram para trás fizeram o exercício assim mesmo — só que depois, e ainda montaram guarda enquanto eu dormia.

Aprendi naquela noite uma coisa que levaria anos para conseguir colocar em palavras: o medo que paralisa os outros muitas vezes é o mesmo que nos impulsiona — a diferença está no que cada um faz com ele.

Eu tinha medo também. Só escolhi andar com ele, não atrás dele.

Anos depois, um ex-colega de equipe chamado Yuri me mandou uma mensagem.

Quando trabalhamos juntos, ele era um profissional iniciante e eu já coordenava o time. Mas ali, naquela mensagem, os papéis haviam sumido. Era só um homem com medo do futuro, lembrando de uma história que eu havia contado num encontro na ASPIN. A história daquela noite. Ele não lembrava dos detalhes — mas lembrava da frase com que eu havia encerrado:

"Devemos saber aproveitar as oportunidades que a vida nos dá, por pior que pareça. Sempre há algo bom por vir."

Essa frase ficou com ele anos a fio. E quando a vida apertou, foi ela que veio primeiro.

Eu li a mensagem dele e precisei de um momento.

Não porque me surpreendeu. Mas porque confirmou algo que eu já suspeitava há muito tempo: a liderança não começa quando você assume um cargo. Ela começa quando uma história sua sobrevive dentro de alguém — e aparece exatamente quando essa pessoa mais precisa.

Essa é a série que eu queria escrever há anos.

Não é sobre gestão. Não é sobre técnicas ou frameworks. É sobre os momentos em que a liderança apareceu na minha vida sem pedir licença — e o que aprendi com cada um deles.

Ela sempre chegou antes de mim.

Eu só aprendi, com o tempo, a não me atrasar.

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