Eu nunca perdi uma noite de sono por causa de um problema.
Não porque os problemas fossem pequenos. Mas porque aprendi cedo — ou talvez já tivesse nascido sabendo — que deitar com um problema não resolve o problema. Só estraga a noite.
Tem gente que chama isso de otimismo. Eu chamo de escolha. Uma escolha feita toda noite, antes de fechar os olhos: o problema fica do lado de fora. Ele vai continuar lá de manhã — isso eu sei. Mas eu vou estar descansado, com a mente limpa, capaz de olhar pra ele sem o peso da exaustão em cima.
Isso sempre foi meu. Não vim buscar em nenhum livro, em nenhum mentor, em nenhum curso. Era uma forma de estar no mundo que simplesmente me constituía — e que eu levei comigo para cada decisão difícil, cada fase incerta, cada noite em que o cenário lá fora não era dos melhores.
Em 15 de maio de 2012, eu publiquei algo no Facebook num dia difícil. Meu pai comentou.
Ele estava com câncer avançado. Vivia um dia depois do outro, numa batalha silenciosa contra um inimigo que ele sabia que não ganharia. Eu era filho único. E mesmo carregando tudo isso, sem hesitar, ele escreveu:
"Dores na alma se cura com o tempo e com amor meu filho. Nada que um novo dia com uma noite no meio não consiga resolver. te amo"
Não foi uma lição. Foi um espelho.
Ele não me ensinou aquilo — ele me lembrou. Me devolveu algo que já era meu, num momento em que eu tinha deixado escapar. E o que me tocou não foi a sabedoria da frase. Foi de onde ela vinha.
Um homem que acordava sem saber se o corpo aguentaria mais um ciclo. Que olhava para o filho único sabendo que o tempo estava ficando curto. E que mesmo assim acreditava, de verdade, que uma noite bem dormida mudava o que precisava ser mudado.
Ele faleceu em 2013.
A frase ficou. E ficou como uma régua. Toda vez que alguém ao meu redor entra em colapso diante de um problema, eu ouço a voz dele. Não com drama, não com discurso. Com simplicidade:
*Nada que um novo dia com uma noite no meio não consiga resolver.*
Positividade não é ingenuidade. Não é negar o peso do que está sobre os seus ombros. É uma decisão de não deixar esse peso entrar no quarto com você.
Eu sempre soube disso. Mas foi meu pai, nos seus dias mais pesados, quem me devolveu essa certeza quando eu precisei.
Algumas heranças não precisam de inventário. Elas simplesmente estão lá, vivendo dentro da gente, esperando o momento de se revelar.