Há episódios que não cabem em projetos.
Entre 2013 e 2015, perdi meu pai para um câncer. Ele tinha 57 anos. O mesmo homem que me ensinou que iniciativa sem alinhamento sabota o gestor. O mesmo que trouxe do Japão a filmadora que virou meu primeiro portfólio. O mesmo cujo laboratório teve a frase na parede.
No mesmo período, um casamento de 15 anos chegou ao fim.
Não havia funil de ideias que resolvesse isso. Não havia sistema em Foxpro, não havia roteiro, não havia produto. Era só a vida pedindo que eu parasse — e eu não tinha escolha.
Enquanto me reconstruía, conheci a mulher que mudaria tudo.
Minha intenção original era o Canadá. Um profissional de TI tem trabalho em qualquer lugar do mundo — e eu queria recomeçar longe, encontrar amigos, fixar nova raiz. Mas minha esposa, a pessoa que escolhi para escrever esse novo capítulo, da área da saúde e de origem alemã, havia iniciado um processo de cidadania que ainda estava em andamento.
A Alemanha não foi uma escolha consciente.
Foi um destino que chegou pela mão de quem eu amava.
E então começou o reset de verdade.
Novo idioma. Nova cultura. Um mercado de trabalho que não conhecia meu histórico. Precisei recomeçar pelo básico — sem atalhos, sem o capital de reputação construído no Brasil, sem a rede que levei décadas para formar. A Alemanha não se impressiona facilmente. Ela pede consistência, não criatividade imediata.
Foram anos reconstruindo — camada por camada.
E no meio dessa reconstrução, algo que eu havia esquecido voltou a surgir: a vontade de ser pai de novo.
Eu já tinha um filho adulto do primeiro casamento — hoje engenheiro na SAP, que seguiu o mesmo caminho da tecnologia. Mas a vida me deu a chance de começar outro capítulo.
Em 2019 nasceu Lucca.
Em 2022 nasceu Anthony.
E foi depois do nascimento do Anthony que o criador voltou.
Não o mesmo de antes — mais jovem, mais urgente, mais ansioso. Um criador diferente. Com mais clareza sobre o que quer construir, com quem quer construir, e por quê.
A Alemanha não apagou o empreendedor. Ela o temperou.
O que esse período me ensinou não cabe numa lição única. Mas se eu tivesse que escolher uma frase:
Às vezes o reset não é derrota.
É o único caminho para o próximo nível.